mercearia

secos & molhados. vendas a grosso e a retalho

UBIQUIDADE

Estás em tudo que penso,
Estás em quanto imagino:
Estás no horizonte imenso,
Estás no grão pequenino.

Estás na ovelha que pasce,
Estás no rio que corre:
Estás em tudo que nasce,
Estás em tudo que morre.

Em tudo estás, nem repousas,
Ó ser tão mesmo e diverso!
(Eras no início das cousas,
Serás no fim do universo.)

Estás na alma e nos sentidos.
Estás no espírito, estás
Na letra, e, os tempos cumpridos,
No céu, no céu estarás.

- Manuel Bandeira

Carta de Herberto Helder para Sophia de Mello Breyner, com referência a Alberto de Lacerda.

Do espólio de Sophia de Mello Breyner Andresen na Biblioteca Nacional de Portugal. Mais no endereço: http://purl.pt/19841/1/

Carta de Herberto Helder para Sophia de Mello Breyner, com referência a Alberto de Lacerda.

Do espólio de Sophia de Mello Breyner Andresen na Biblioteca Nacional de Portugal. Mais no endereço: http://purl.pt/19841/1/

Postal de Alberto de Lacerda e Almada Negreiros para Sophia de Mello Breyner

Do espólio de Sophia de Mello Breyner Andresen na Biblioteca Nacional de Portugal. Mais no endereço: http://purl.pt/19841/1/

Chovia sempre e eu custei para conseguir me levantar daquela poça de lama, chegava num ponto, eu voltava ao ponto, em que era necessário um esforço muito grande, era preciso um esforço tão terrível que precisei sorrir mais sozinho e inventar mais um pouco, aquecendo meu segredo, e dei alguns passos, mas como se faz? me perguntei, como se faz isso de colocar um pé após o outro, equilibrando a cabeça sobre os ombros, mantendo ereta a coluna vertebral, desaprendia, não era quase nada, eu, mantido apenas por aquele fio invisível ligado à minha cabeça, agora tão próximo que se quisesse eu poderia imaginar alguma coisa como um zumbido eletrônico saindo da cabeça dele até chegar na minha, mas como se faz? eu reaprendia e inventava sempre, sempre em direção a ele, para chegar inteiro, os pedaços de mim todos misturados que ele disporia sem pressa, como quem brinca com um quebra-cabeça para formar que castelo, que bosque, que verme ou deus, eu não sabia, mas ia indo pela chuva porque esse era meu único sentido, meu único destino: bater naquela porta escura onde eu batia agora. E bati, e bati outra vez, e tornei a bater, e continuei batendo sem me importar que as pessoas na rua parassem para olhar, eu quis chamá-lo, mas tinha esquecido seu nome, se é que alguma vez o soube, se é que ele o teve um dia, talvez eu tivesse febre, tudo ficara muito confuso, idéias misturadas, tremores, água de chuva e lama e conhaque no meu corpo sujo gasto exausto batendo feito louco naquela porta que não abria, era tudo um engano, eu continuava batendo e continuava chovendo sem parar, mas eu não ia mais indo por dentro da chuva, pelo meio da cidade, eu só estava parado naquela porta fazia muito tempo, depois do ponto, tão escuro agora que eu não conseguiria nunca mais encontrar o caminho de volta, nem tentar outra coisa, outra ação, outro gesto além de continuar batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, na mesma porta que não abre nunca.

- Caio Fernando Abreu, MORANGOS MOFADOS (no Kindle)

"Naquela tarde, ali sentado em Southwold com o mar alemão aos meus pés, senti com toda a clareza o mundo imergindo lentamente nas trevas. Na América, diz Thomas Browne no seu tratado sobre a inumação das urnas, os caçadores levantam-se quando os persas estão mergulhados no mais profundo sono. A sombra da noite vem a reboque estender-se sobre a Terra e como quase tudo, círculo terrestre após círculo terrestre, se deita depois de se deitar o Sol, prossegue ele, poderíamos, indo sempre atrás do sol poente, ver constantemente a esfera terrestre que habitamos cheia de corpos deitados, fila após fila, como se ceifados pela foice de Saturno - um cemitério comprido, sem fim, para uma humanidade epilética."

- W.G. Sebald, OS ANÉIS DE SATURNO (Quetzal)

THE NAMING OF CATS, by T.S. Eliot

The Naming of Cats is a difficult matter,
It isn’t just one of your holiday games;
You may think at first I’m as mad as a hatter
When I tell you, a cat must have THREE DIFFERENT NAMES.
First of all, there’s the name that the family use daily,
Such as Peter, Augustus, Alonzo or James,
Such as Victor or Jonathan, George or Bill Bailey—
All of them sensible everyday names.
There are fancier names if you think they sound sweeter,
Some for the gentlemen, some for the dames:
Such as Plato, Admetus, Electra, Demeter—
But all of them sensible everyday names.
But I tell you, a cat needs a name that’s particular,
A name that’s peculiar, and more dignified,
Else how can he keep up his tail perpendicular,
Or spread out his whiskers, or cherish his pride?
Of names of this kind, I can give you a quorum,
Such as Munkustrap, Quaxo, or Coricopat,
Such as Bombalurina, or else Jellylorum-
Names that never belong to more than one cat.
But above and beyond there’s still one name left over,
And that is the name that you never will guess;
The name that no human research can discover—
But THE CAT HIMSELF KNOWS, and will never confess.
When you notice a cat in profound meditation,
The reason, I tell you, is always the same:
His mind is engaged in a rapt contemplation
Of the thought, of the thought, of the thought of his name:
His ineffable effable
Effanineffable
Deep and inscrutable singular Name.

isherwoodfiles:

"Stephen [Spender] was writing too, though he spent much of his time out of doors, keeping Christopher and Otto company. He was recording their holiday with his camera. This had an automatic shutter release, so Stephen himself wasn’t necessarily excluded from the record. In a recent letter to me, he recalls that:

«with a masturbatory camera designed for narcissists I took - or it took - the most famous photograph in the history of the world, of US THREE.»

Stephen, in the middle, has his arms around Wystan and Christopher and an expression on his face which suggests an off-duty Jesus relaxing with “these little ones.” Christopher, compared with the others, is such a very little one that he looks as if he is standing in a hole.”

- Christopher Isherwood, CHRISTOPHER AND HIS KIND (University of Minnesotta Press)

Mondego, Coimbra, abril 2014

Rui Chafes, O Peso do Paraíso, Lisboa - CAM