mercearia

secos & molhados. vendas a grosso e a retalho
”- Não é uma coisa amena… Mesmo tendo acontecido há quase quarenta anos.- Quarenta anos?!- Quase isso.- Com você?- Ainda não sei até que ponto.- É natural que não saiba, você era uma criança.- Doze anos.- Você está atormentado por uma coisa que aconteceu quando você tinha doze anos?- Essas são as coisas que realmente nos atormentam. As outras são apenas problemas.- E essa coisa pode ser contada?- Esse é o problema: a clareza com que consigo contar coisas que se passaram há tanto tempo.”- Luiz Alfredo Garcia-Roza, NA MULTIDÃO (Companhia das Letras)

”- Não é uma coisa amena… Mesmo tendo acontecido há quase quarenta anos.
- Quarenta anos?!
- Quase isso.
- Com você?
- Ainda não sei até que ponto.
- É natural que não saiba, você era uma criança.
- Doze anos.
- Você está atormentado por uma coisa que aconteceu quando você tinha doze anos?
- Essas são as coisas que realmente nos atormentam. As outras são apenas problemas.
- E essa coisa pode ser contada?
- Esse é o problema: a clareza com que consigo contar coisas que se passaram há tanto tempo.”


- Luiz Alfredo Garcia-Roza, NA MULTIDÃO (Companhia das Letras)

UBIQUIDADE

Estás em tudo que penso,
Estás em quanto imagino:
Estás no horizonte imenso,
Estás no grão pequenino.

Estás na ovelha que pasce,
Estás no rio que corre:
Estás em tudo que nasce,
Estás em tudo que morre.

Em tudo estás, nem repousas,
Ó ser tão mesmo e diverso!
(Eras no início das cousas,
Serás no fim do universo.)

Estás na alma e nos sentidos.
Estás no espírito, estás
Na letra, e, os tempos cumpridos,
No céu, no céu estarás.

- Manuel Bandeira

Carta de Herberto Helder para Sophia de Mello Breyner, com referência a Alberto de Lacerda.

Do espólio de Sophia de Mello Breyner Andresen na Biblioteca Nacional de Portugal. Mais no endereço: http://purl.pt/19841/1/

Carta de Herberto Helder para Sophia de Mello Breyner, com referência a Alberto de Lacerda.

Do espólio de Sophia de Mello Breyner Andresen na Biblioteca Nacional de Portugal. Mais no endereço: http://purl.pt/19841/1/

Postal de Alberto de Lacerda e Almada Negreiros para Sophia de Mello Breyner

Do espólio de Sophia de Mello Breyner Andresen na Biblioteca Nacional de Portugal. Mais no endereço: http://purl.pt/19841/1/

Chovia sempre e eu custei para conseguir me levantar daquela poça de lama, chegava num ponto, eu voltava ao ponto, em que era necessário um esforço muito grande, era preciso um esforço tão terrível que precisei sorrir mais sozinho e inventar mais um pouco, aquecendo meu segredo, e dei alguns passos, mas como se faz? me perguntei, como se faz isso de colocar um pé após o outro, equilibrando a cabeça sobre os ombros, mantendo ereta a coluna vertebral, desaprendia, não era quase nada, eu, mantido apenas por aquele fio invisível ligado à minha cabeça, agora tão próximo que se quisesse eu poderia imaginar alguma coisa como um zumbido eletrônico saindo da cabeça dele até chegar na minha, mas como se faz? eu reaprendia e inventava sempre, sempre em direção a ele, para chegar inteiro, os pedaços de mim todos misturados que ele disporia sem pressa, como quem brinca com um quebra-cabeça para formar que castelo, que bosque, que verme ou deus, eu não sabia, mas ia indo pela chuva porque esse era meu único sentido, meu único destino: bater naquela porta escura onde eu batia agora. E bati, e bati outra vez, e tornei a bater, e continuei batendo sem me importar que as pessoas na rua parassem para olhar, eu quis chamá-lo, mas tinha esquecido seu nome, se é que alguma vez o soube, se é que ele o teve um dia, talvez eu tivesse febre, tudo ficara muito confuso, idéias misturadas, tremores, água de chuva e lama e conhaque no meu corpo sujo gasto exausto batendo feito louco naquela porta que não abria, era tudo um engano, eu continuava batendo e continuava chovendo sem parar, mas eu não ia mais indo por dentro da chuva, pelo meio da cidade, eu só estava parado naquela porta fazia muito tempo, depois do ponto, tão escuro agora que eu não conseguiria nunca mais encontrar o caminho de volta, nem tentar outra coisa, outra ação, outro gesto além de continuar batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, na mesma porta que não abre nunca.

- Caio Fernando Abreu, MORANGOS MOFADOS (no Kindle)